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NAS ALTURAS - PARTIDA DE LIMA PARA CARACAS
21-09-2006
Com a mala cheia de livros e de documentos, vou para o aeroporto de Lima - Perú.
Nos dias que passei em Lima, neste período de fim de inverno, os dias estiveram invariavelmente cinzentos, ligeiramente frios mas amenos. Não costuma chover na cidade por causa de um fenômeno climático associado à corrente de Humboldt, mas há suficiente umidade para a vegetação. Por certo, estão começando a restaurar a camada verde dos barrancos que margeiam as praias, sem a certeza de que vão recuperar as fontes de águas [“chorrilhos” que brotavam das encostas.]
O trânsito continua enlouquecido, caótico ruidoso, mas vê-se um ímpeto de empreendedorismo de crescimento, de novas oportunidades, apesar das enormes dificuldades que ainda enfrentam os peruanos. Gente tão sensível! Amável.
NAS ALTURAS
Meus amigos mais próximos estão preocupados com a minha decisão de ir a Caracas nestas circunstâncias. Sabem que fui alvo, recentemente, de “graves y constantes amenazas” de militantes “políticos” de um “país vecino”, como publicamos, naquela oportunidade, em nossa página web. Cheguei a entrar em contato com a polícia especializada em crimes na internet, a fazer um dossiê para a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e, por e-mail, com conhecidos da própria Embaixada da Venezuela.
Não vou registrar aqui os desdobramentos do episódio, mas que se “esqueceram! de mim nos últimos tempos. Devem ter atingido seus objetivos, se não diretamente, de alguma maneira. Tampouco vou entrar em detalhes porque está devidamente descrito em textos anteriores.
É certo que ameaçaram covardemente. Usaram uma linguagem solerte e virulenta, como eu nunca havia experimentado ou mesmo lido em toda a minha vida, mesmo em contos aterradores sobre a violência urbana ou sobre o terrorismo. Mas não perdi a calma nem a compostura. Chegaram até a insinuar que eu me “cuidasse” se pretendesse voltar ao país. Ficção macabra.
Fui desaconselhado por amigos a viajar pera a estreia de
minha peça “Tu país está feliz”. Ninguém garante proteção alguma. Sinceramente, é tudo um exagero. Vou com a consciência tranquila. Tenho um grande amor pela Venezuela, país que me acolheu no final da década de 60, com uma bolsa de estudos, que expandiu meus horizontes. Formei-me em biblioteconomia pela UCV e trabalhei na Biblioteca Nacional e em bibliotecas públicas de Caracas, enquanto desenvolvia meus projetos culturais. Escrevi artigos para o jornal IMAGEN, do INCIBA e participei da montagem de meus textos com atores e técnicos do Ateneo de Caracas, de cuja diretoria cheguei a fazer parte.
Deixei a Venezuela, sem 1972, para continuar meus estudos em nível de pós-graduação , com a intenção de regressar (até me convenceram a pedir uma licença do cargo em vez de demitir-me, mas acabei viajando para a Europa se minha vida tomou outros rumos. Mas regressei a Caracas em muitas oportunidades, primeiramente devido sucessivos convites da oficina local da UNESCO e, mais recentemente, por conta própria.
Gosto do país e hoje estou empenhado em traduzir e divulgar os poetas venezuelanos de diversas gerações e escolas artísticas, no nosso Portal de Poesia Iberoamericana.
Venezuela está acima dessas provocações extemporâneas. O país é muito maior ou melhor que as circunstâncias bizarra de algum fanatismo.
EM MAIQUETIA
O aeroporto fica no litoral, a uma distância considerável de Caracas, e a subida à cidade é por uma autopista que, desde os anos 50, sempre foi o maior orgulho da engenharia venezuelana. Os viadutos altíssimos, os túneis imensos e a visão de montanhas e do mar impressionam visitantes e nativos. Mas o tempo passa e, nem sempre, da melhor maneira.
É imprescindível a ocupação dos espaços urbanos em nossas plagas (quase disse pragas...), qualquer planejador fracassa a longo prazo: as invasões começaram a semear ranchos e casebres miseráveis que foram subindo os morros, a alturas incríveis até formar-se um presépio descomunal, por toda parte, em todas as direções, até onde a vista alcança, com suas tragédias humanas.
É belo o horror da desgraça social, emocionante, principalmente à noite, favelas como estrelas piscando no horizonte, como lâmpadas festivas em um cenário de perplexidades. Favelas, cidadelas inexpugnáveis, irremovíveis, há décadas e que alimentam sonhos e pesadelos, território de violência e de esperanças, reservatório de protestos e de apoios políticos populistas desde os tempos dos ditadores e, mesmo, da democracia, reserva para a pregação de missionários e dos evangélicos.
A infetação de águas contaminadas e o despejo de lixo a céu aberto é uma das marcas de seu desamparo. Impossível prover de esgotos onde não há condições mínimas de moradia. As águas negras subterrâneas vão infiltrando suas malezas e vencendo resistência nas encostas, provocando deslizamentos, soterrando casarios, arrastando toda vegetação e devastando o que encontra pela frente. Ainda está na memória de seu povo o pavor e o horror de La Guayra, com centenas de casas e edifícios soterrados pelas águas e pela lama das chuvas, as pedras imensas caindo sobre os automóveis e causando a morte de centenas de habitantes. Um espetáculo dantesco, que a imprensa televisa registrou com mórbido sensacionalismo.
No início deste ano, caiu um dos pilares de um dos viadutos e segue-se o desmoronamento de toda a ciclopia construção. Crônica de uma tragédia anunciada. Previsível, esperada pelos seus pilares, corria um rio de águas podres, havia um pântano de águas estagnadas e putrefactas.
Chega-se agora a Caracas por um tortuoso desvio, que é uma tortura para quem circula pela autopista. Milhares de carros num congestionamento de horas. Muitos carros velhos, enormes em estado de miséria, movidos ainda por causa do preço baixo e da gasolina subsidiada, não resistem, fervem, adernam, são empurrados para o acostamento (onde existe) e expelem seus gases envenenados, um vapor de desespero e impotência.
Na TV mostram as obras de novos pilares como uma competição olímpica, eufemística, anunciando ser uma das obras do século, orgulho para a América Latina, com música patriótica, grandiloquente. É um espetáculo que se anuncia! Grandes investimentos, geração de empregos, orgulho da engenharia nacional. É época de eleição e os ânimos estão exacerbados, o discurso é por circunlóquios e depois lamentos.
22-09-2026
Google.com
Almocei com minha amiga Zélia Stoddart, em seu magnífico apartamento nos altos de Altamira. Ela trabalhou com Roberto Burle Marx na urbanização do famoso Parque del Este de Caracas, onde agora promovem reformas e manutenções.
Zélia é minha amiga do peito, da alma. Bibliotecária, com ela trabalhei na biblioteca do consulado do Brasil em Caracas, nos idos de 1967/1968. Afetuosa, inteligente, generosa, sempre tem um almoço magnífico, uma conversa espirituosa, divertida. É artesã. Confecciona jóias magníficas com pedras semipreciosas e dedica-se ao estudo, ao cultivo e a fotografia de bromélias, nossa paixão comum, e acaba de editar um livro sobre o tema. Um prazer revê-la.
ENSAIO
Estou em meu elemento. O ambiente no Ateneo de Caracas é estimulante, vivificante, cercado de atores, diretores de teatro, músicos, cantores, poetas, criadores. Gente em ação, em processo permanente de produção.
Rajatabla é uma fábrica de atores por gerações. Francisco Alfaro estava à minha espera com a amizade e a lealdade de sempre, há mais de três décadas, assim como Xulio Formoso. Estão sempre ocupados, motivos em sucessivos projetos.
O ensaio de minha peça musical Tu país está feliz - foi para mim, impactante, emocionante. A garotada do elenco foi escolhida mediante um longo processo, a partir de quase cem candidatos. As condições eram de excelência em expressão corporal, dicção, canto e — por que não — beleza física. Não no sentido frívolo das montagens musicais convencionais, mas da expressividade. Afinal, teatro é magia, é encantamento, é sedução.
Franciso Alfaro (Paco) é um heterossexual, mas sabe administrar um espaço em que há muitos homossexuais. Na opinião dele, a versão de Tu país está feliz, em 1984, tinha, ao contrario da original de 1971, algumas conotações
de amaneiramento de alguns detalhes da encenação e da atuação, que não condizem com a virilidade do texto.
O atual diretor “reprodutor” da peça (baseada na de Carlos Giménez, o primeiro diretor da peça) acha que as versões anteriores eram homófonas. Em verdade, Tu país está feliz, estreou com muitos atores masculinos e uma única atriz — a argentina Mariel Jaime Maza. Nas versões seguintes, nos meses que ficou em cartaz, foi incorporando mais até ter três atrizes, mas os homens sempre foram maioria.
A versão de 2006 não é diferente: três mulheres e cinco homens, quase todos, enormes, apolíneos, atléticos, e as mulheres de estatura mediana. Parece composta para o público feminino, com jovens tão belas, onipresentes.
O único técnico da montagem é excelente, superior às montagens anteriores. O texto é explícito, claro, perfeito e só falta ganhar individualidade, mas os atores dominam os conteúdos e em contato com o público, certamente vão ressaltar as mensagens além da perfeição do coletivo, do grupo.
O ritmo está forte, seguro, exigindo um esforço físico descomunal, que leva a suar. Não haverá instantes para o tédio e a apatia, como sempre desejamos. Nada de declamatório, nada de gestualismo gratuito. Tudo é força, vigor, convencimento.
Tu país está feliz queria dizer pela voz dos jovens o que os jovens queriam ouvir, falando com o corpo mais do que pela voz.
Saí do ensaio convencido de que o meu texto — integralmente restaurado, com as alusões aos anos 70 — é atualíssimo. É apropriado para os dias de crise em que vive a Venezuela da “revolução bolivariana que comecei a conceber o espetáculo parece atual. Algumas pessoas me convenceram de que os versos eram anunciatórios dos tempos futuros.
Vamos à prova, a ver como reage o público, como entende a crítica , diferentes daquele utopismo que se vivia no fim dos anos 60.
Com Tu país está feliz eu pretendi enfrentar os formalismos vigentes, pregar uma rebelião de costumes e quebrar valores em voga — que iam da política à religião, da ação transformadora às ideologias, através da poesia.
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